Agora a situação era a seguinte: estávamos com as pernas e corpo bem cansados pelos dois dias puxados de trilha e tínhamos que alcançar o Glaciar Torre para caminhar e escalar um pouquinho sobre o gelo com o equipo que eu aluguei na cidade; voltar para desfazer o acampamento e; fazer a trilha de 2 horas e meia de volta até El Chaltén, onde conforme combinado dois dias atrás, a Carina me esperaria até o anoitecer.
Já era meio dia e meio quando saímos do acampamento, pegamos uma trilha de 10 minutos, e já chegamos na Laguna Torre, que fica quase 1.5km do Glaciar. Agora fiquei imaginando se o frio da noite passada não foi causado pelo vento passando por este monte de gelo. A temperatura baixou tanto que, por ter trazido um saco de dormir mais leve, tive de abrir um cobertor metálico de emergência descartável que devo ter já fazem 14 anos e que nunca tinha precisado usar rs.
Agora víamos dois caminhos possíveis, pela direita da Laguna e pela esquerda. Como a trilha da direita estava melhor demarcada, resolvemos seguir por ela para quase depois de uma hora de subida, descobrir que ela terminava em um abismo sem chances de ser desescalada sem o equipamento apropriado.
Tivemos que voltar correndo em meia hora para tentar iniciar a trilha pelo outro lado da laguna a tempo. No caminho conhecemos Martin, um suíço muito bacana, que depois seria nosso buddy em El Chaltén.
O Caminho pelo lado direito apresentava uma complicação importante. Era iniciada por uma tirolesa de 15 metros sobre um rio congelante e, no momento, não tinhamos as cadeirinhas de escalada e o mosquetão ou polia necessário para fazer a travessia. Quando eu bati o olho, por causa de meus anos na escalada, eu sabia que eu poderia passar por ela me pendurando com as mãos e as pernas mas tinha praticamente certeza que o Alejandro não conseguiria e, por isso, sugeri procurarmos outro acesso pelo leito do rio. Após 15 minutos procurando, para minha surpresa, o Alejandro insistiu em tentarmos a travessia pela corda, e isso seria a parte mais engraçada da empreitada.
Eu estava com uma fita que uso para amarrar cargas na minha moto durante viagens e fiz um esquema bem grotesco para amarrar isso no cintura do Alejandro e na corda da tirolesa. Pedi que fizesse um teste em dois metros mas, como ele colocou muito peso na fita, ela derreteu quase 20% da sua superficie por causa do atrito. Este foi um sinal de alerta amarelo mas, como ele tinha lenços umedecidos, colocamos os lenços ao redor da fita para diminuir o atrito e lhe aconselhei a não colocar o peso do corpo na fita, mas sim usá-la para aliviar o peso de seu corpo quando ficasse cansado.
Instruções entendidas, fiz a travessia utilizando o mesmo esquema com a fita mais frouxa para não danificá-la para o Alejandro. Chegando ao fim da travessia, já sentia os braços pesados, então relaxei, respirei e terminei a travessia com alguma energia sobrando, mas nem tanto rs. Amarrei as luvas na fita junto com uma pedra e arremessei o equipo para o Alejandro fazer a travessia.
Bom, ele começa a fazer a travessia e parecia que vinha bem mas, na metade do caminho, seus braços se cansam e ele começa a ficar um pouco desesperado com a situação. Primeiro ele perdeu os pés ficando pendurado pelas mãos e pela cordinha improvisada. Nesse momento eu gritava para que ele retornasse as pernas na corda e quando ele fez, para meu desespero, ele perdeu as mãos, ficando de ponta cabeça, preso pelas pernas e pela cordinha. Continuei dando instruções e ele retornou a posição de travessia. Comecei a gritar, "faltam 3 metros", "venga", "venga", "respira", "respira", "faltam dois metros", "venga", etc rs, e ele veio vindo mas quando faltava um metro e pouco do início da margem, ele perdeu as mãos e as pernas e ficou preso de cabeça pra baixo somente pela fita que, naquele momento, eu já não sabia se aguentaría o peso ou não. Nessa hora, eu coloquei uma perna no rio, agarrei em seus braços pois estava de ponta cabeça e, a pedido dele, primeiro retirei a sua mochila que tinha um GPS e uma camera de 800 dólares. Joguei a mochila na margem, desvirei ele, segurei pelas pernas e fomos nos arrastando até a margem. Na chegada, comemoramos muito a empreitada e, inclusive, algumas pessoas que estavam passando e pararam para olhar aplaudiram a performance da dupla.
Nos recompomos e iniciamos a trilha que é bem pouco utilizada por turistas, com passagens beirando precipícios, atravessando uma cachoeira e descendo umas pirambeiras com pedras soltas. No meio do caminho encontramos um guia conduzindo um grupo que nos perguntou onde estava a nossa autorização para fazer a trilha. Nos entreolhamos e dissemos educadamente que não sabíamos de autorização nenhuma. Ele nos explicou que deveríamos ter feito registro na cidade onde seria explicado o grau de dificuldade e os equipamentos necessários. No mais, se não voltássemos, eles seriam responsáveis por fazer o resgate. Além disso, durante o registro, eles nos explicariam o equipamento necessário e verificariam se sabíamos utilizar tudo.
Em seguida ele perguntou como cruzamos a tirolesa e, quando expliquei que fizemos com o braço, ele ficou bem furioso por não termos feito uso de cadeirinhas e polias e nos disse que não deveríamos ter feito isso pois, alguns anos atrás, um turista caiu de cabeça na pedra. Se isso acontecesse de novo, eles poderiam perder a licença para fazer a travessia com os turistas. Fiquei bem constrangido e tentei contornar o stress do guia falando que era um escalador e poderia ir e voltar na corda várias vezes e, por este motivo, ele poderia seguir tranquilo. Isso acabou não ajudando muito pois ele perguntou se o Alejandro poderia fazer o mesmo e, na negativa, pela cara dele, achei que ele ia nos mandar voltar com eles. Felizmente, ele decidiu deixar uma cadeirinha escondida em uma pedra para que o Alejandro utilizasse na volta. Nos disse como devolver a cadeirinha em um acampamento de funcionários do parque e nos desejou sorte para seguimos nosso caminho.
Depois de cruzar uma cachoeira, pegamos o caminho errado saindo em alguns abismos até não ser possível continuar mais. Devido ao risco da situação e o tempo apertado, perguntei para o Alejandro se ele queria desistir, mas este argentino loco estava disposto a tudo para chegar no Glaciar. Seguimos caminho e descemos a pirambeira cheio de pedras enormes soltas e conforme pisávamos, elas rolavam morro abaixo nos dando a indicação clara que estávamos no lugar errado. Para reduzir os riscos, descemos paralelamente para não atingir o outro com as pedras que rolavam. Depois de uma hora nesse perrengue, chegamos a base do Glaciar e a sensação de conquista foi incrível. Rapidamente vesti os crampos, peguei a piqueta e segui para a exploração.
O Glaciar Grey em Torres del Paine é muito mais bonito, mas, como lá chegamos de barco e fomos com guias, a emoção nem se comparou com a aventura deste Glaciar.
Depois da caminhada no gelo, saímos com bastante pressa pois já era tarde e precisamos fazer todo o caminho de volta até o acampamento, desmontar tudo, seguir para um acampamento de prestadores de serviço do parque para devolver a cadeirinha emprestada e seguir para El Chaltén por mais 2 horas e meia.
Na início da subida, paramos para comer e apareceu um guia com mais um grupo de turistas. Este guia também ficou bravo por não termos a tal autorização e foi bastante enfático que estávamos fazendo coisas erradas pois não tínhamos todo o equipamento necessário para a empreitada, etc e tal. Depois de nos desculparmos de novo, ele foi bem útil em nos informar qual era a trilha de volta e fizemos o caminho com 1/3 do tempo que tomamos para chegar pelo caminho errado.
Saímos na frente dos turistas e chegamos na tirolesa em 1 hora e pouquinho. Eu fiz a tirolesa no braço pois as polias estavam do outro lado e o intrutor não nos deixou nenhum mosquetão. Meu plano era voltar com as polias e resgatar o Alex mas, neste momento, o guia chegou e tomou conta da situação, deixando bem claro como estava bravo por eu ter feito a travessia nos braços de novo. O guia ajudou o Alejandro que atravessou a tirolesa facilmente com cadeirinha e polias. Agradecemos o guia e seguimos nosso caminho pois ja estava bem tarde. Desmontamos acampamento pelas 19:30 e seguimos para devolver a cadeirinha em um desvio do caminho que nos tomou quase 40 minutos. Já eram 21 horas e andamos rápido mas, na metade do caminho, ficamos no escuro e rapidamente sacamos nossos headlamps para iluminar a trilha continuar a caminhada. Como o Alex estava com uma mochila muito pesada, eu caminhava bem na frente e logo encontrei o grupo de turistas com o guia que estava bravo com a gente. Pela estranha baixa luminosidade entre eles, eu apaguei o meu headlamp e percebi que eles estavam caminhando no escuro sem lanternas e duas garotas do grupo estavam muito preocupadas pois tropeçavam muito e poderiam cair em um barranco facilmente. Vendo a situação, sem falar nada, decidi acompanhar o grupo andando no meio, entre as meninas e um americano e um alemão, com o guia na frente. A luz ajudou bastante e senti que isso poderia redimir um pouco o nosso erro de não ter feito o tal registro para a caminhada no Glaciar. Ao fim da trilha, o pessoal agradeceu pela luz e até o guia disse um "Gracias" que me fez sentir menos mal sobre o ocorrido no Glaciar, pois até o momento só vinha tomando broncas deste guia. Na chegada da cidade, deixei o grupo para esperar pelo Alejandro que vinha atrás. Nestes minutos, fiquei pensando que o guia reclamou tanto sobre não termos o equipamento correto e ele, como profissional e local de El Chaltén, com cinco turistas sob sua resposabilidade, não estava carregando nenhuma lanterna, tsc, tsc. Isso bem que diminuiu a minha sensação de culpa rs.
Esperei o Alex, nos encontramos e seguimos para o meu hostel para avisar a Carina que já deveria estar preocupara pelo horário da nossa chegada - 23:30.
Chegando no hostel, pegamos o carro e deixei o Alex o hostel do Martin (aquele suiço), voltei, jantei, tomei um banho longo pois, segundo a Carina, estava marrom e ainda cheirando mal depois de duas noites sem banho rs. Depois disso, dormi 12 horas seguidas sob a calefação do quarto do hostel rs.
Dessa vez a aventura foi puxada e fiquei muito feliz de ter alcançado todos os objetivos e avistado paisagens belíssimas.
Nestes dias na natureza fiquei muito feliz e espero guardar todas as sensações boas desta aventura em El Chaltén, chamada pelos locais de capital mundial do trekking.
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